sábado, 14 de junho de 2014

RETIRO DA PASTORAL FAMILIAR 2014 (1)


No final de semana de 13 a 15 de junho, aconteceu no Centro de Estudos da nossa Arquidiocese, no Sumaré, mais um retiro promovido pela Pastoral Familiar, tendo como pregador, Dom Antonio Augusto Dias Duarte, nosso bispo animador.
Como a ocupação do local restringe o número de participantes, compartilhamos com nossos amigos internautas aqui no nosso blog a riqueza de experiências deste final de semana abençoado! Venha fazer este “retiro virtual” conosco você também!
 
 
 

1ª meditação – O Valor do Silêncio
 
Dom Antonio iniciou o retiro nos lembrando que chegamos aqui sem sabermos o que iríamos ouvir, mas Deus sabe o que quer nos falar.
Citou um trecho de uma obra escrita por um crítico musical, escritor, coordenador artístico de grandes eventos para TV italiana. É uma biografia de Chiara Luce. A jovem focolarina, que faleceu aos 19 anos e foi recentemente beatificada. E o mais interessante de tudo: ele é agnóstico. Escreveu o livro a pedido de sua irmã que era a melhor amiga de Chiara. Dom Antonio partilho conosco um capítulo deste livro que se chama “25 Minutos”. Conta o que aconteceu om a jovem no dia 14 de março de 1989. Chiara estava no hospital para o seu primeiro dia de quimioterapia. E, só então, entenderia a gravidade de sua doença.  Quando Chiara vê a placa “oncologia” sente uma angústia no coração... Deve ter pensado no que Deus estava lhe pedindo. Já fazia algum tempo que sabia que não era coisa simples.
Quando Chiara voltou do hospital, toda encapotada em sua jaqueta verde, jogou-se no sofá, conta o autor.  Tereza sua mãe, que por ordem dos médicos não acompanhou a filha ao hospital porque estava adoentada, aproxima-se dela, querendo saber como foram as coisas. Chiara responde: “Não fale agora.”. Tereza tenta puxar conversa de novo: “Agora, não, mamãe!”, responde. Pode-se ficar furioso com Deus ou ficar se iludindo. Mas Chiara só precisava de um pouco de tempo, para esmiuçar as consequências do que lhe estava acontecendo. Sempre havia feito assim desde criança... ainda mais agora.
Continua o autor, afirmando que foi o momento mais importante de escolha na vida de Chiara. Ninguém pode dizer o que se passou em sua cabeça naqueles 25 minutos de silêncio. Uma batalha silenciosa entre o instinto e a razão, entre o desespero e a aceitação do próprio destino. O medo da morte, o repentino esmigalhar de todos os projetos. Ninguém pode dizer tampouco como Chiara pode sair daquele buraco negro. Qual foi a força que a ajudou a abraçar a muito aquela que havia escolhido como Esposo.
Depois daqueles 25 minutos terríveis ela disse: “Agora pode falar, mamãe!”. A batalha se resolvera depois de uma conversa profunda com o seu Senhor. Naquela vez, como em tantas outras, Chiara havia dito o seu “sim”, num consentimento que aconteceria dali até o seu fim.
Depois desta leitura, continua Dom Antonio:
Essa menina travou uma batalha por 25 minutos, 25 minutos de silêncio. O silêncio – seja de quanto tempo for – não é uma dimensão da vida pessoal para pessoas excepcionais, é para todas as pessoas que querem viver a verdadeira vida.
O silêncio é sobretudo necessário em momentos especiais da vida, como um retiro. Infelizmente criou-se um mau costume na Igreja Católica: estamos acostumados ao barulho. Se fazem retiros como se fossem encontros, onde as pessoas mais falam do que escutam Deus falar. Ora-se mais com ruído do que com silêncio. Este não é o tempo para se pôr a conversa em dia. Precisamos ter a coragem neste retiro de dizermos: “Agora não...”.
Se estamos num retiro para ouvir Deus (e não o sacerdote, que é apenas, como dizia são Paulo, um embaixador de Deus) é preciso “secar” no silêncio interior e exterior essa “fonte” de uma água contaminada. É a fonte das curiosidades. Ficamos muito curiosos sobre o que vamos ouvir. As curiosidades, em geral, levam à dispersão, nos esvaziam e nos conduzem apenas à superficialidade da vida. Os pensamentos de Deus não lançam raízes numa alma distraída e dispersa.
Além disso, muitas curiosidades são inadequadas. Esse esforço do silêncio deve ser feito sempre, mas especialmente, nesses dias de retiro. A nossa intimidade não é penetrada, nem conhecida no barulho das curiosidades. E viemos ao retiro para nos conhecermos em Deus. Devemos sair do retiro nos conhecendo muito melhor e descobrindo facetas novas da nossa intimidade. Como podemos querer conhecer o outro se não nos conhecemos e não deixamos nos conhecermos com o olhar de Deus?! Como eu sou conhecido/a por Deus?
É uma batalha silenciosa entre a emoção e a razão. Como o fez Chiara Luce. E a partir daí sua vida foi mudando. Uma pessoa jovem que adquiriu a experiência do silêncio com Deus.  Deixar Deus falar.
Além disso, o silêncio conduz a um caminho muito importante na vida, seja um silêncio curto ou prolongado, o caminho de procurarmos o juízo de Deus, e não os diagnósticos humanos.
No documento “A Alegria do Evangelho”, o Papa Francisco diz que precisamos evitar o “excesso de diagnósticos”, em que não se leva em conta e nem se conhece a pessoa que está sendo examinada. Às vezes, fazemos isso na vida. Procuramos conhecer muito sobre as coisas e as pessoas, mas não deixamos Deus nos dizer o que Ele pensa.
Descuidar o silêncio é andar por um caminho de vaidades. A vaidade mais grave é a de se julgar: “Eu sei como eu sou... eu sei conduzir a minha vida... eu tenho certeza de que o caminho é esse...”. Isso não é juízo... é diagnóstico. E, ás vezes, os diagnósticos estão errados.
Um outro autor diz: “A tagarelice é o trono da vaidade.”. A falta do silêncio interior e exterior é a falta dos valores os quais alimenta a vida: a paz interior, a serenidade...
Sequemos, portanto, a fonte da curiosidade e desçamos do trono da tagarelice.
Quem não sabe viver no silêncio ainda não aprendeu a viver. A primeira vantagem do silêncio é encontrar-nos conosco mesmos, ir em busca dos alicerces mais profundos do nosso eu. Isso é impossível no barulho, porque nos derramamos muito para fora de nós mesmos. É falar demais quando Deus quer que a gente ouça demais.
No teatro Municipal, o papa Francisco pediu que promovêssemos a cultura do encontro. E isso deve começar conosco mesmos. Encontrar-me comigo mesmo, com minhas raivas, dúvidas, desejos, necessidades. Encontro-me comigo mesmo apesar da minha confusão interior que é fruto da minha falta de vigilância? Por que estou tão tenso, estressado, tão longe das pessoas e de Deus?
O silêncio clareia o olhar inteiro. Dilata as pupilas da nossa alma, e nos faz ver problemas nos recôncavos da nossa existência.... problemas dos quais fugimos, problemas que adiamos e fingimos que não os vemos... O silêncio é o melhor caminho para o autoconhecimento.
O silêncio não é só o caminho, mas o atalho para voltarmos a falar, com acerto, palavras que constroem e não palavras que destroem. É condição imprescindível para o reto falar. O momento em que mais ferimos as pessoas foi quando deixamos as cachoeiras das paixões causarem verdadeiros “Tsunamis” na vida dos outros... É como “contar até 10”... não é só uma questão de técnica, mas de silêncio e espera. Dizem que “O sábio se conhece pelas suas poucas palavras.”. Não se trata, portanto, de falar muito, mas de falar com respeito e amor o que reto e útil.
O silêncio no retiro é um excelente caminho para o desapego interior, sobretudo das ideias fixas, ou temosias. O desapego dessas razões (sem razão) e das quais não queremos abrir mão são sentimentos que nos escravizam. O silêncio nos permite entender melhor as ideias de Deus, nos permite descobrir suas vontades cheias de sabedoria e amor, que saem diretamente do seu coração. O silencio é como os braços de Deus que nos protegem, nos acolhem e nos dão carinho. Porque quando ficamos no barulho das ideias fixas, e vamos deixando esses pensamentos obsessivos nos dominem, caímos nos “braços pesados” que não nos aliviam. Vivamos esse desapego. Quais são minhas ideias teimosas? Não abro mão das minhas fantasias e superficialidades? Sou capaz de desapegar-me das minhas antipatias? Das dores da alma? Das amarguras da vida?
Deus nos pega pelo braço e nos leva pelos caminhos do desapego. Faz crescer em nós o homem novo, movido pelo amor a Deus. O que me move na vida? Como posso amar a Deus se não sinto seu amor? O verdadeiro amor reclama o silêncio. O silêncio do olhar, do ambiente... e para sentir-me amado por Deus e para poder ama-lo preciso viver de uma forma independente do que está a minha volta... Mesmo estando em plena época de Copa do Mundo, como estamos agora!
Teremos momentos curtos e longos durante este retiro para, em silêncio, nos encontrarmos com Deus. Quem consegue viver no silêncio, consegue viver no mundo sem ser dominado pelo mundo. Diz Jo 17, 15: “Pai, não peço que os tireis do mundo, mas que os livreis do mal.”. E o mundo de hoje é o mundo do barulho, da correria, das tensões... é o mundo que está longe de Deus.
Quem não consegue fazer silêncio se deixa dominar pelo mundo. Deus só se aproxima de verdade das almas silenciosas. Quando a vida nos proporciona 25 minutos de silêncio exterior é um privilégio... Imaginem só dois dias de retiro. Que saibamos aproveitar esta oportunidade de ouro. Deus quer se encontrar conosco neste silêncio e nos ensinar um novo modo de nos encontrarmos na vida. Pedimos esta graça por intercessão a Nossa Senhora, a Virgem do silêncio, que guardava tudo em seu coração. Falava só o necessário. Seu silêncio aos pés da Cruz mostra o segredo da sua vida íntima com Deus. As poucas vezes que abriu a boca, foi só para proferir palavras retas. “Fazei tudo o que ele vos disser” (cf. Jo 2). E Jesus nos diz: quero vos encontrar aqui, no silêncio.


2ª meditação – Um Olhar Contemplativo
Deus quer falar conosco sobre si mesmo, já que estamos para celebrar a festa da Santíssima Trindade. Deus, na sua perfeição e comunhão, nos contempla, a nós que somos seus filhos. Somos acompanhados, amados e eternamente vistos por Deus. Vivamos este tempo, estas coordenadas, olhando a vida desta mesma perspectiva. Um dia estaremos diante de Deus, um dia estaremos olhando sem cessar para aquele Pai, Irmão e Amigo que nos têm diante deles desde toda eternidade. O seu Mistério silencioso é uma grande luz para a nossa vida. Porque a vida é exatamente isso: um diálogo entre Deus Uno e Trino e cada um de nós.
A vida para cada um de nós transcorre no tempo, mas estamos destinados  a viver na eternidade. Assim como a luz do sol nos mostra a beleza da criação, também a luz da fé nos permite ver aquilo que os antigos pensadores se questionavam. Para o mundo antigo greco-romano, em que pessoas se dedicavam a contemplar a natureza, perguntava-se:  “De que vale isto para a eternidade?”.  É uma pergunta constante. Uma visão que nós devemos ter na vida: O que vale tudo o que vivemos, se tudo acaba? O que vale tudo o que acumulamos na vida, se depois tudo se tornará pó?
Por isso, Deus quer conversar conosco, do seu silêncio da eternidade, sobre um tema pouco conversado, mas necessário: a VIDA CONTEMPLATIVA. Será o primeiro tem a do nosso retiro. Ver a vida, contemplando a Deus.
O que, aliás, é a única forma de termos uma vida realmente ativa, e não dispersiva, como uma contínua “roda viva”, que vai nos comprimindo e esmagando. Uma vida de diálogo contínuo com a Santíssima Trindade, um diálogo fraterno e amigável. Seguindo o conselho que Jesus dava aos pescadores, homens ativos que saíam de madrugada para pescar a as vezes não pescavam nada. Um dia Jesus entrou na barca (Lc 5, 4-6):
“... e disse a Simão: “Faze-te ao largo, e lançai vossas redes para pescar.” Simão respondeu-lhe: “Mestre, trabalhamos a noite inteira e nada apanhamos; mas por causa de tua palavra, lançarei a rede.” Feito isto, apanharam peixes em quantidade tão grande, que a rede se lhes rompia.”
 Pedro cedeu na sua realidade de pescador experiente, e cumpriu a vontade de Jesus. Obedeceu-o, e teve uma pesca milagrosa. Olhou nos olhos de Cristo, deixou-se olhar por ele, foi trabalhar e o trabalho foi frutífero. Convém orar sempre e não desfalecer, também alertou Jesus mais tarde. Convém conversar sempre com Deus, como Jesus faz. Ser um católico de verdade é ser um homem e uma mulher de oração, que estão continuamente em diálogo com Deus Uno e Trino.
Não basta ser somente um batizado que dedica alguns momentos da sua rotina para rezar. Não basta ter alguns momentos de oração, mas é preciso ter uma vida contemplativa. Quando a vida vem com seu rolo compressor, vemos a diferença entre um e outro: alguns ficam desesperados, aflitos.... isso é incoerente com que está constantemente na presença de Deus. As orações vocais têm sua importância, mas a contemplação é muito mais essencial do que se imagina. Preciso ser, de fato, uma pessoa de oração, que sabe que está sendo contemplada por Deus, que não tira os olhos de mim. E hoje em dia, vemos pessoas que não tiram os olhos do visor do celular, da TV, do computador...
Como foi prazeroso, hoje, quando acordamos e vimos o amanhecer neste local que nos acolhe. Tivemos ante nossos olhos a maravilha da criação de Deus Criador: Por isso tinha muita razão o poeta que, diante do mar, dizia: “Por que todo mundo vê o que eu vejo e não enxerga o que eu contemplo?”. Estamos muito acostumados a olhar simplesmente para a vida,  mas não a contemplá-la.
Contemplar é um dom do Espírito Santo que precisamos pedir, e que está embutido no dom da sabedoria, ou seja, aprendermos a saborear a vida, termos um gozo de viver, de trabalhar, de nos relacionarmos com o mundo e as pessoas à nossa volta. Mas essa não parece ser a tônica do mundo atual. Todos vivem se lamentando e se justificam com olhares realistas: “Como podemos ter prazer e esperança se o futuro é tão incerto?” Podemos, sim, começar e terminar cada dia com prazer, se contemplarmos a Deus. Não se trata de uma atividade intelectual, mas de um dom espiritual. São João da Cruz, grande contemplativo, chamava a contemplação com uma expressão muito especial: a ciência do amor. Talvez não tenhamos a ciência que os grandes gênios da história tiveram para penetrar os grandes mistérios da natureza, mas nós podemos penetrar mistério de Deus. É a ciência que percebemos nos pais que contemplam o filho recém-nascido, com um olhar bem diferente do olhar do médico, da enfermeira... O olhar das pessoas que estão apaixonadas uma pela outra – como o deve ser sempre o olhar entre os esposos... Precisamos ser contemplativos no amor humano, ainda que se passem muitos anos de convivência. Por isso, a palavra-chave é sermos pessoas que sabem olhar. Não podemos perder de vista este olhar de amor.
O CCE, no n. 2014 diz: “Deus chama a todos os batizados a uma união íntima com ele.” União que será eterna após a morte, mas que já começa aqui na minha vida terrena. Por isso, precisamos do dom da sabedoria, e de dispormo-nos para recebermos esse dom, como a semente que cai na terra dura, pedregosa, espinhosa ou na terra boa. Nossa alma precisa ser preparada para ser essa terra boa que receberá a semente da sabedoria.
Uma forma de não sermos um mau terreno, já ouvimos ontem à noite: sabendo guardar o silêncio. Assim, poderemos ouvir a Deus. Não só neste retiro, mas na nossa vida diária. Momentos de silêncio procurados intencionalmente para não sermos engolidos pela vida, para não sermos comandados, mas sim comandantes. Quem não sabe encontrar uns momentos de silêncio para estar na presença de Deus, mesmo com tanto trabalho, preocupações e atividades, não saberá viver e não dará frutos. Peçamos o dom da sabedoria para sabermos saborear a vida, de verdade.
Em segundo lugar, durante o dia, durante nossas muitas atividades, que nos exigem e nos cobram, é preciso trabalhar sem distrair-se, sem dispersar-se. Não podemos ser só “Marta”, mas devemos ser também como “Maria”. Numa das visitas de Jesus, Marta trabalhou muito distraída, e o trabalho distraído é muito esgotante. Imagine 13 homens famintos chegando na sua casa de surpresa... E Jesus responde a ela: “Marta, Marta, andas muito inquieta e te preocupas com muitas coisas. No entanto uma só coisa e necessária. Maria escolheu a boa parte, que não lhe será tirada. “ (Lc 10, 41-42).
Não devemos ser só Marta, e nem só Maria. Mas em tudo o que fizermos devemos perceber que Cristo está no meio do nosso trabalho. Não nos distrairmos com o imediato, mas estarmos aos pés de Cristo até em meio às nossas tarefas diárias, sabendo nelas reconhecer a presença de Cristo. Assim, encontraremos motivação para ver e fazer a única coisa que nos é necessária: agradar a Deus. Distrair significa perder o necessário, que é aquilo que não passa. Caminhar entre as coisas que passam, sem perder de vida as coisas que não passam.
Como Chiara Luce, sobre  qual comentávamos ontem. Depois que foi diagnosticado o seu tumor maligno que a levaria a morte, ela viu, um dia, seu pai visivelmente esgotado. Afinal, além do trabalho para sustentar a casa ainda lutava com a doença da filha única. Ela disse ao pai: “É preciso fatiar as coisas... viver bem cada minuto em união com Jesus.” E sua melhor amiga, irmã daquele biógrafo agnóstico, depois de visitar Chiara, já ciente da sua doença, viu como sua mãe, Teresa, questionava porque tal desgraça acontecera com sua filha e não com ela própria. Ela chorava, mas concluía que era melhor acreditar no amor de Deus.
Devemos, no silêncio da nossa alma, perguntarmo-nos: O que predomina em mim? O ativismo? A correria? Ou a contemplação? Somos capazes de saborear a vida, de ver a mão de Deus atrás de cada acontecimento? Influencio na vida das outras pessoas, não pelo que eu faço, mas pelo que eu sou?
Uma pessoa contemplativa, sem querer, é também contemplada pelas outras pessoas, porque ela olha tudo com olhos da eternidade. No final do livro sobre Chiara, o agnóstico diz: “Criei o hábito de me dirigir a Chiara com certa frequência, como a uma heroína. No meu caso é mais como uma brincadeira, do que uma oração. De vez em quando funciona, de vez em quando não. Seja como for devo admitir que hoje muito mais do que há 20 anos, Chiara me dá mais conforto.” Vejam só o milagre: Chiara transformou um agnóstico em um contemplativo. Ele não fala com Deus, mas fala com Chiara. E Chiara com certeza fala dele para Deus. Nós também podemos fazer isso. Como eu sou? Ativista? Olho só para mim mesmo e os resultados dos meus esforços e não procuro o resultado – que é Deus?  Ou contemplativo? Vejo as coisas e deixo Deus me ver?
Lembremo-nos das três pessoas perfeitas que me contemplam sempre.

 


1ª palestra -  A MISSÃO DOS LEIGOS



Jesus usou uma metáfora, comparando: “O Reino dos Céus é semelhante a um grão de mostarda...” (Mt 13, 31). A Igreja vai caminhando no passo de Deus. E continua a parábola: “...que um homem toma e semeia em seu campo”.
Se a Igreja nasceu pequena e foi crescendo como ação eficaz de Deus no meio do mundo. Mas para que isso aconteça ela precisa ser tomada assumida por cada pessoa e semeada em cada campo em que atuamos, na família, no trabalho, etc. Ela está nas mãos de cada um de nós, como aquele grão de mostarda. A  Igreja está nas mãos de cada um de nós. O ritmo de crescimento será o próprio da semente. O papa alertou os bispos, que muitas vezes nos ocupamos com muitas coisas dentro da Igreja, mas não nos preocupamos com a Igreja. O mesmo pode acontecer também com a família, com os relacionamentos familiares.
Usando esta metáfora da árvore, há um tronco comum: a vida e a mensagem de Cristo, ou seja, a doutrina da Igreja, que é comum a todas as pessoas batizadas em todas as partes do mundo, mas existem os ramos desta árvore que vão formar a copa. O tronco comum nunca vai cair nem apodrecer, porque é a essência da Igreja. Mas sua copa crescerá ao ritmo do nosso trabalho. Poderá ser frondosa ou minguada, de acordo com a nossa atuação. A extensão da Igreja depende, em última análise, dos leigos. Que o tronco esteja firme e ereto, com a graça de Deus, depende da hierarquia eclesial, mas onde estes não chegam, os leigos devem estar atuando. Os bispos, padres e diáconos não podem estar em todos os lugares, mas os leigos estão. Mas o que são os leigos?
A palavra LEIGO vem de uma raiz grega: “laikos”, que significa “pertencente ao povo”. Não aparece na Bíblia, nem no Antigo, nem no Novo Testamento. Os seguidores de Cristo eram chamados de “fiéis”, “santos”, “embaixadores de Cristo”, “familiares de Deus...”. Somente lá pelos anos 40 ou 50 d.C., em Antioquia, é que os batizados forma chamados de “cristãos”, palavra que predomina até hoje. E um papa, Clemente I, que é dos finais do século I, que usa pela primeira vez o termo “leigo”. Ele fez referência ao povo de Israel, de quem não pertencia à tribo de Levi. Sabe-se que o povo da antiga aliança tinha seus sacerdotes retirados da tribo de Levi. Ele usava o termo batizados como intercambiável á palavra “leigos”, comparando com os que eram do povo de Israel, mas não eram da tribo de Levi. Leigos, eram, assim, todas as pessoas que não pertencem à hierarquia da Igreja, ou seja, não são sacerdotes. Acabou ganhando uma certa conotação negativa.
Com o surgimento da vida monástica, dos que se retiravam do mundo, surge a vida religiosa, que seguiam  suas regras (regulares), e os que não se afastam do mundo, que eram os seculares. O leigo vinha sempre com um conceito negativo “aquele que não é...”. Mas, o que é o leigo, num sentido positivo?

 
 
É pelos leigos, principalmente, que a Igreja chega às periferias, como vem convocando o papa Francisco, recentemente. A copa desta árvore precisa se estender mais, chegando a ambientes onde ali a igreja ainda não está presente. Isso é papel e missão do leigo. E como isto foi amadurecendo?
Há três períodos bem distintos:
 
1-      Desde Pentecostes até o século IV – todo batizado tinha consciência de que era um membro vivo da Igreja. Como havia poucos sacerdote4s e bispos, o povo sabia que a Igreja dependia dele. A Igreja, por exemplo, começou a entrar na Europa graças a uma mulher leiga, comerciante, chamada Lídia, que se abriu à mensagem de Cristo proclamada por São Paulo. Ela se abriu ao grão de mostarda, converteu-se juntamente com sua família e foi estendendo sua copa. Um casal, Áquila e Prisicla, fazedores de tendas, coo Paulo, também se converteram e foram estendendo a copa da Igreja. O leigo era parte essencial da missão da Igreja. A fé ia se difundindo num mundo pagão a partir do tronco de Pedro, Paulo e os outros apóstolos, mas estendia seus ramos pelos leigos. Diz São João Crisóstomo, numa carta a uma comunidade de cristão: “Eu não vos disso não se casem. Eu não vos digo abandonai a cidade, e afastai-vos dos negócios do mundo. Não,. Permanecei onde estão, mas praticai a virtude. Para dizer a verdade mais gostaria que brilhasse suas vidas pelas virtudes, mais do que aqueles que não são cristãos. Não se pode acender uma luz, mas colocá-la embaixo de uma mesa. Não usemos a justificativa:” ... tenho filho, tenho mulher, tenho casa e não posso cuidar das coisas de Deus...”. Se és fervoroso terás a luz do mundo. Só uma coisa se requer ao leigo: disposição. Nenhuma coisa pode constituir obstáculo à virtude. Todos cumprem o que foi mandado pelo nosso Senhor. Jovem, era Davi, José era escravo, Áquila exercia uma profissão manual, outro era guarda de uma prisão, outro estava doente, como Timóteo, outro era um fugitivo, como Onésimo, e nada os impediu que brilhasse sua virtude.”
Foi assim que um império pagão se tornou cristão. A árvore do Reino de Deus cresceu não só no tronco, mas na Copa. Durante séculos os leigos não deixaram o mundo ao léu, mas ao contrário transformaram o mundo.
 
2-      Do século V até o século XV – começou um período de uma espécie de harmonia entre o mundo e a Igreja. Cristo permeava todas as dimensões do mundo. Povos bárbaros foram evangelizados e tiveram seus costumes modificados. Era a época da Cristandade. Os valores cristãos eram não só valorizados, mas vividos. Foi um milênio de um trabalho silencioso. É claro que havia ainda realidades para serem cristianizadas, mas em geral, eram pessoas que tinham uma visão cristã da vida. Eram leigos como reis, rainhas e outros leigos que semeavam o grão de mostarda e eram sal e luz do mundo. Para um batizado não se concebia uma vida dupla: ou era cristão ou não era. Assim, entendemos porque os hereges eram banidos da sociedade e veio a inquisição, questão que podemos tratar em outro momento. A doutrina da Igreja era essencial para uma sociedade melhor. As fontes para tal estavam na vida religiosa. E para contemplar o leigo, muitas ordens religiosas possuem a ordem terceiro, voltada para os leigos. Um exemplo é Santa Catarina de Sena que era da Ordem Terceira Dominicana. Os leigos viviam na sua missão. Eram Igreja, e consolidaram o mundo cristão. A vida social durante séculos foi fecundada pelo espírito cristão e uma grande parte destas mãos que semeavam eram jovens, casados, solteiros, trabalhadores...
 
3-      E dos séculos XVI até o século XX – chegou a Idade Moderna, que abalou o mundo até hoje, especialmente com as mudanças trazidas pelos séculos XVI, XVII e XVIII. Aconteceram duas coisas bem significativas que influenciam nossa cultura atual. Duas fraturas graves na história da humanidade: a separação da fé e da razão. Lutero cometeu um grande erro de fé. A razão humana é o suficiente para explicar Deus. E um século depois Descartes fez a ruptura entre fé e sociedade. O valor da religião se perdeu para ser uma mera construção da sociedade. Por isso, fala-se tanto no estado laico. O que determina é o princípio do progresso e da evolução: o que se faz hoje é melhor do que o que se fez ontem. A fé vai ficando cada vez mais marginalizada e por conseguinte a Igreja. O princípio do progresso vem com outros dois, a descristianização da sociedade e a secularização da Igreja. Os valores do passado não servem mais para o pressente. Isto nós respiramos, bebemos e nos alimentamos a cada dia. Hoje já não se conserta mais nada que quebra. Joga-se fora e compra-se outro... O velho... é velho. E assim se age até com as pessoas. Por isso, o papa insiste tanto para valorizar a sabedoria dos idosos, que acabam sendo descartados. O que vale não a pessoa, mas o que ela é capaz de produzir. Onde estão os leigos nesta hora? São meros expectadores da destruição da sociedade e da Igreja. Deixam o rumo das coisas e as grandes decisões nas mãos de pessoas que se dizem inteligentes e não fazemos nada. É preciso ter a situação de vida perfeita, não importa em quem se pisa. Tudo isso é fruto destas duas fraturas. A razão vai criando uma realidade virtual. E como a Igreja está sempre presente, é preciso arrancar esta árvore para não atrapalhar este suposto progresso. Isso desde a revolução francesa, tão aclamada. Quais as primeiras atitudes: tirar os religiosos do cuidado dos hospitais, fechar escolas católicas, expulsar religiosos, ou seja, tentar arrancar a árvore pela raiz. E aqui reside o núcleo central deste período em que vivemos: houve um retraimento e inibição dos leigos do mundo para se refugiarem dentro das sacristias. Então, ser um bom cristão é ser da paróquia... Mas na família, no trabalho na diversão, na cultura, vive-se como se não fossemos cristãos. Nas reuniões dos agentes de pastoral só vemos problemas e se diz: “Aqui dentro me sinto tão bem...”. passa-se a ter uma ambientalização do catolicismo. Na Igreja vivo bem e protegido, mas lá fora vivo como o mundo todo vive. Mas onde os primeiros cristãos viviam? Lá fora! Nos palácios, nas termas, nos mercados, nos grandes centros de pensamento filosóficos, nos fóruns.... viviam no mundo para levarem Deus ao mundo.
 
A igreja, graças a este tronco alimentado pela seiva do espírito, quer formar uma geração de leigos que façam seu trabalho ao estender esta copa. Vemos um resnascimento da consciência do batizado que age como Igreja em favor da Igreja. Essa é a responsabilidade atual do batizado. No século II lê-se esta carta de Diognieto: “Os cristãos são no mundo o que a alma é no corpo. Tão importante é o lugar que Deus lhes assinalou que não é lícito deserdar.” Os leigos são aqueles que ganharam de Deus a responsabilidade de se ocuparem do mundo, são os protagonistas do verdadeiro progresso e desenvolvimento sustentável nos valores que dignificam a pessoa, a família, a política, a cultura, etc. Lembremos da barbárie que foi recentemente notificada de uma festa de formatura escandalosa na UFF. A cultura atual está muito secularizada e descristianizada.
O tronco é responsabilidade da hierarquia, por isso ela existe na Igreja, mas o ramos crescem por iniciativa do que é a maioria da Igreja: os leigos. O tronco tira da terra e distribui toda substância nutritiva para a árvore, mas é a á sombra desta copa frondosa onde os pássaros vem se refugiar e construírem seus ninhos. Os leigos não podem ficar passivamente esperando o que os padres vão dizer. Pra que direção num carro onde não há motor. Uma só tem sentido com a outras. Os leigos estão na primeira linha da Igreja. Não estamos penas na Igreja mas somos Igreja! E isso se fala desde Gregório XVI, um papa que logo após a revolução francesa 91831 1 1846). Ele foi despertando a consciência dos católicos, num mundo que achava que tinha atingido o máximo da ciência e da razão, Pio IX falava das responsabilidades sociais dos cristãos como cidadãos do mundo e não “escondidos embaixo das saias dos padres”. Leão XIII escreveu uma encíclica sobre o papel dos cristãos da sociedade, como base da doutrina social da Igreja: a Rerum Novarum. Os sindicatos, que hoje se desvirtuaram, têm uma origem cristã. E assim, todos os outros papas vem chamando a atenção dos leigos atuando fortemente e cristãmente na sociedade civil. O Magistério sempre coloca o protagonismo e a iniciativa do leigo que precisa conquistar seu espaço de missão. Onde é que estão os leigos para se destacarem na família? Preferem não se meter nessa sujeira e continuar sendo um bom e recatado pai de família... O leigo é a igreja presente nos diversos ramos da cultura e da ciência, abrindo a mentalidade científica à mentalidade revelada. Se faz muito melhor medicina, economia quando se parte do princípio que o homem é imagem de Deus. A missão da Igreja é que em todas as situações exista, pelo menos, humanidade. As pessoas não precisam acreditar no dogma da Santíssima Trindade, mas precisam se verem e se entenderem como serem humanos, verdadeiramente humanos. Leigo é aquele que exerce uma ação livre e responsável diante de Deus em meio à vida temporal.
Num outro documento se diz que o leigo toma a livre e responsável iniciativa em unidade de espírito e doutrina com a hierarquia para cristianizar a sociedade. É distinto da hierarquia, mas não é um separado, porque não existe ramos sem tronco e nem tronco sem ramos. O leigo não aquele que vigia o padre para denunciá-lo ao bispo. Nem o padre pode ser aquele que vê o leigo como aquele que vai fazer o que ele não quer fazer... O leigo não pode só atuar dentro da Igreja, mas principalmente fora dela, fazendo a árvore crescer não só para cima, mas também para os lados. Podemos, claro, colaborar com a paróquia, sim, mas não é nossa missão essencial que é agir onde Deus nos colocou. É preciso darmos vitalidade ao corpo social em todas as suas dimensões. Um leigo consciente da sua missão que bebe a seiva do tronco da doutrina cristão sabe extrair daí todas as exigências espirituais e sociais do Evangelho. O Reino dos céus é como um grão de mostarda...” Essa é a nossa responsabilidade eclesial.
Fala-se tanto de que a sociedade é plural, mas dão espaço a tudo, menos à fé. Jogam-se fora os dois mil anos em que a Igreja colaborou com a pintura, a música, a arquitetura e a ciência. Mas para desvalorizar a Igreja diz-se que foi a “Idade das trevas”, porque foi a época da cristandade. E hoje? O que se vê? Por que nas novelas não se consegue passar uma imagem que não acabe num beijo, não consegue haver um diálogo sereno?
O que Deus espera de mim neste mundo secularizado, em que a Igreja é perseguida de uma forma ostensiva ou sutil? Devemos ir ao mundo a li atuar. Neste mundo que está abandonado nas mãos de ateus que se dizem inteligentes e progressistas, preocupadas com a humanidade, com as minorias, as mulheres e as crianças.. . mas estão fazendo um trabalho totalmente contra a humanidade. Está óbvio!
 
 
 
(Fotos: Claudio Maris)
 
 
A tarde encerrou-se com a meditação do terço, numa agradável caminhada contemplando a natureza ao redor do Centro de Estudos do Sumaré e a bênção de Dom Antônio sobre a Cidade Maravilhosa!

Um comentário:

Claudio Maris Ferreira disse...

Boa tarde,
Como sempre você foi maravilhosa ao relatar este retiro.
Coloco aqui o meu propósito:
Levar para o meu ambiente de trabalho a felicidade de ser católico, ter uma família unida e que Deus rege meus atos na minha vida familiar, profissional e pastoral na minha comunidade paroquial a qual participo para alimenta-me das palavras de Deus.