sábado, 12 de outubro de 2013

Retiro Arquidiocesano (12-10-13)

2ª MEDITAÇÃO (12/10/13)

Os quatro passos que vimos ontem estão pautados no tema do nosso retiro: a fé. Em outubro de 2012, Bento XVI nos escreveu uma carta com o título sugestivo: A Porta da Fé. E dizia naquela ocasião: “A porta da fé está sempre aberta para nós.”. O papa emérito nos recordou que a porta da fé, sua intimidade foi-nos colocada com livre acesso para que pudéssemos nos encontrar com ele. Bento XVI dizia que toda razão de ser do seu ministério tinha um objetivo: fazer brilhar com evidência sempre maior a alegria e o entusiasmo do encontro com Cristo. Quando entramos por esta porta da fé, quando somos homens e mulheres de fé, não acontece em nós algo abstrato ou só no plano teórico. Ao entrarmos neste caminho da fé, encontramos a alegria e o entusiasmo de termos a amizade de Cristo, de vivermos de acordo com nosso nome de cristãos.
E o papa Francisco, em 29 de junho, pouco antes de vir para o Brasil, divulgou a Luz da Fé. Uma porta e uma luz. Ultimamente, aqueles que parecem querer dominar e impor a cultura, se empenham em nos convencer que esta porta está fechada e que a luz, na verdade, é escuridão. Nos ensinam que esta porta e esta fé foram úteis numa época em que o homem era menos esclarecido e o mundo menos desenvolvido. Dizem que hoje a fé é um obstáculo para você ser feliz. É um impedimento para você abrir sua cabeça e viver as aventuras da vida! Hoje vale o que diz a ciência, a cultura. O mínimo que se permite é que a fé seja um vago sentimento de consolação... quando não há explicações, podemos dizer, resignados: “É vontade de Deus...”. Quais são as consequências deste modo de pensar?
Devemos refletir como vai a nossa fé. Uma fé morna ou uma fé teórica gera na vida das pessoas confusão. Começam a não mais distinguir entre o certo e o errado, entre o bem e o mal. Nos faz girar em torno de um círculo vicioso do individualismo e do hedonismo que são como que um labirinto, do qual não conseguimos mais sair.
Na Lumem Fidei, é citada como que um Best Seller dos primeiros tempos do Cristianismo, chamado Ata dos Mártires. Estes que tiveram uma vida exemplar (Estevão, Águeda, Luzia, Inês, Cecília, Anastácia, etc...). “A convicção duma fé que faz grande e plena a vida, centrada em Cristo e na força da sua graça, animava a missão dos primeiros cristãos. Nas Atas dos Mártires, lemos este diálogo entre o prefeito romano Rústico e o cristão Hierax: « Onde estão os teus pais? » — perguntava o juiz ao mártir; este respondeu: « O nosso verdadeiro pai é Cristo, e nossa mãe a fé n’Ele ». Para aqueles cristãos, a fé, enquanto encontro com o Deus vivo que Se manifestou em Cristo, era uma « mãe », porque os fazia vir à luz, gerava neles a vida divina, uma nova experiência, uma visão luminosa da existência, pela qual estavam prontos a dar testemunho público até ao fim.” Foi a fé a mãe que nos gerou para a vida com Deus e que nos alimenta com os sacramentos e nos acompanha em todos os momentos de nossa vida. Esta fé a mãe que desperta em nós o amor.
Ainda na Porta Fidei, Bento XVI escrevia: “Por isso, também hoje é necessário um empenho eclesial mais convicto a favor duma nova evangelização, para descobrir de novo a alegria de crer e reencontrar o entusiasmo de comunicar a fé. Na descoberta diária do seu amor, ganha força e vigor o compromisso missionário dos crentes, que jamais pode faltar. Com efeito, a fé cresce quando é vivida como experiência de um amor recebido e é comunicada como experiência de graça e de alegria..” A fé nos faz ser filhos e também é geradora, porque nos torna fecundos, gerando vida nova para nós e para os outros.
Em 2017, comemoraremos os 300 anos da imagem de Aparecida achada no rio. Disse o papa Francisco fez uma leitura de Aparecida que pode ser uma leitura da nossa vida: “A história deste Santuário serve de exemplo: três pescadores, depois de um dia sem conseguir apanhar peixes, nas águas do Rio Parnaíba, encontram algo inesperado: uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. Quem poderia imaginar que o lugar de uma pesca infrutífera, tornar-se-ia o lugar onde todos os brasileiros podem se sentir filhos de uma mesma Mãe? Deus sempre surpreende, como o vinho novo, no Evangelho que ouvimos. Deus sempre nos reserva o melhor. Mas pede que nos deixemos surpreender pelo seu amor, que acolhamos as suas surpresas. Confiemos em Deus!” Em Aparecida, Deus nos deu sua própria mãe. Veio de forma simples, numa humildade própria de Deus. A humildade é o DNA de Deus. Vemos algo para aprender sobre Deus e a Igreja em Aparecida. Na busca de pobres pescadores, que buscavam suprir a fome, a partir de poucos recursos, de um barco frágil e instrumentos inadequado, depois do cansaço da pesca e o resultado escasso, insucesso. As redes estão vazias. Buscamos tantas coisas em nossas vidas, estamos sempre buscando coisas boas. Mas nossa fragilidade humana é como este barco: tudo é insuficiente, não tenho tempo, não tenho dinheiro, não tenho poder...
Continua o papa: “Depois, quando foi da vontade de Deus, comparece Ele com o seu mistério.... chegou de surpresa. Uma imagem de barco frágil... Deus vem sempre nas vestes da pequenez.”. Isso não é só bonito, é real! “Vem então a imagem da Imaculada Conceição e com ela a unificação de corpo e da cabeça e retoma a unidade perdida.” “O Brasil colonial era dividido pelo muro vergonhoso da escravidão. Maria vem com a face negra. É um ensinamento que Deus nos quer oferecer da escuridão do rio: recomposição fraturado, compactação do dividido. A Igreja não pode descuidar desta lição. De ser instrumento de reconciliação.” A fé quando vivida como experiência de amor nos faz ser instrumentos de reconciliação e reconstrução.
Ás vezes não mesmos nos perdemos em labirintos porque perdemos de vista o rosto da nossa mãe. “Feliz o homem que tendo pedido tudo na sua vida, não perdeu o interesse pela casa da sua mãe.”. Costumo pensar muito nesta frase que ouvi uma vez. A mãe sempre vai nos ouvir, consolar e animar. A fé é a nossa mãe. Não é só um conjunto de verdades que nos cabe conhecer e tentar a adaptar a ela a nossa vida. A fé é nossa mãe! E para com ela há duas atitudes, indicadas na Lumem Fidei, que se destacam: escutar a mãe e contemplá-la. A carta se inspira na Bíblia: "Justamente porque o conhecimento da fé está ligado à aliança de um Deus fiel, que estabelece uma relação de amor com o homem e lhe dirige a Palavra, é apresentado pela Bíblia como escuta, aparece associado com o ouvido. São Paulo usará uma fórmula que se tornou clássica: « fides ex auditu — a fé vem da escuta » (Rm 10, 17)... " Além disso, a fé é conhecimento ligado ao transcorrer do tempo que a palavra necessita para ser explicitada: é conhecimento que só se aprende num percurso de seguimento. A escuta ajuda a identificar bem o nexo entre conhecimento e amor.”
Quantas pessoas pararam no tempo e ficaram com a fé da Primeira Comunhão. Será que não crescemos na fé assim como crescemos na vida? Temos escutado nossa mãe? Escuto a fé na minha vida diária? Inspiro-me na Palavra de Deus e na minha consciência para tomar decisões vitais? Em Aparecida, o Papa Francisco nos lembrou que a fé veio por uns pecadores humildes, por uma imagem com corpo e depois a cabeça... E hoje, quanta gente viaja tantos quilômetros só para passar e ficar uns segundos em frente àquela imagem... só contemplando... O que será que se passa na mente daquelas pessoas? Eu já tinha pensado que a fé é a luz e a porta da minha vida? Lembremos daquele jovem mártir que disse sem temos que seu Pai era Cristo e sua mãe era a fé! Eu tenho uma mãe que me gera, me acolhe e me alimenta: é a minha fé católica.
 
1a PALESTRA
 
A FAMÍLIA PROMOTORA DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL
 
A família é a célula vital da sociedade. Muitos acham que a sociedade de hoje está destruindo a família, mas não é verdade. A família é que, se deteriorando, deteriora a sociedade. A família é uma instituição valorizada e querida pela sociedade. Segundo uma enquete mundial de valores realidade entre 2005 e 2008 com entrevistados em 51 países 89,7% dos entrevistados colocaram a família em primeiro lugar, acima do trabalho e da religião.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos, art. 16, inc. 3, diz: “3.A família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção desta e do Estado.” Um Estado que não legisla em favor da família é como uma doença autoimune: ele se destrói. A família não é só algo religioso, mas natural. A própria sociedade então deve ter o dever de proteger a família.
No congresso nacional brasileiro, por exemplo, existem atualmente 647 projetos de lei para destruir a família.
 
O diagnóstico da situação
Vemos o esvaziamento do conceito de matrimônio e a palavra família sendo usada de uma forma ambígua. E quais fontes para se conseguir este efeito: as leis e as fontes de educação. Como os pais são os primeiros responsáveis e educadores de seus filhos é preciso prestar atenção a que conceitos de família estão sendo ensinados na escola.
É uma sociedade que proclama e amplia direitos e não considera os deveres. Promove-se a primazia do lado afetivo com um conceito de compromisso fluido e parcial, afirmando que o compromisso por toda vida é apenas uma utopia. Muitos não acreditam mais que é possível assumir um compromisso com o marido/ esposa, filhos e outras situações para sempre e não apenas por um período. Vivemos, como disse o papa Francisco, na cultura do descartável. Hoje em dia, ensina-se que o casamento é um mero contrato que pode ser revogado a qualquer momento por vontade das partes.
Alguns dados de pesquisa do Instituto para o Matrimônio e a Família ao redor do mundo:
- A população está envelhecendo
- A taxa de natalidade decresce
- A taxa de casamentos também
- Os números de divorcia aumentam assim como a tendência a uniões sucessivas - Aumento das uniões de fato
- Os filhos nascidos fora do matrimônio já são em maior número do que os filhos nascidos dentro do matrimônio
 
Desafio: dar novas razões
Querem ridicularizar a família dizendo que é um conceito imposto pela religião. É preciso demonstrar que o futuro da sociedade passa através da renovação das funções sociais da família. Estas funções não são contingentes, ocasionais, e seu valor não se reduz às prestações de serviço que ela oferece. Expressão a necessidade que a família não é um mero grupo social, mas a instituição social primária sem a qual é pouco provável que uma sociedade se desenvolva. É preciso redefinir a família no horizonte do seu ser, e dar espaço para que ela haja em sua identidade.
Mas... que se entende por família? De que família estamos falando? Com que família estamos trabalhando enquanto agentes de pastoral? Que estrutura define uma família? Que eixo organizativo define todas as dinâmicas da família?
Há cinco aspectos a caracterizam:
- Tem quem a encabece - É um marco normativo de direitos e obrigações, que surge do estado civil das pessoas que a encabeçam
- Há um tipo de vínculo entre as pessoas que a encabeçam
- Há um vínculo legal de consanguinidade entre essas pessoas e as gerações seguintes
- Relação do núcleo familiar com outras pessoas dentro de um mesmo lar Família, famílias, modelos de família...
A Semântica da pluralidade acaba trazendo um problema de linguagem
- metáfora (similitude) – por exemplo, posso falar na família tricolor para me referir a um grupo de pessoas que se identificam com um time. Mas qualquer pessoa sabe que não se tratam de pessoas com laços de sangue e amor e com todas aquelas características que forma mencionadas. É só uma comparação.
- Analogia (semelhança) – é o que se tenta fazer, chamando de família a qualquer relação afetiva.
O maior isso de analogias e metáforas no campo da família nos leva a distinguir:
- As relações propriamente familiares: que se caracterizam pela capacidade e possibilidade de manter e renegociar as relações de intercâmbio e sexo entre as gerações.
- As relações que surgem de estilos de vida caracterizados por tendência ao individualismo e a privatização das relações interpessoais como o âmbito primário familiar em sentido metafórico.
A revolução do século XXI é ignorar que haja um padrão ou uma estrutura latente do que seja a família. Isso, entretanto, não passa de uma ignorância.
Qual é o genoma da família? Seu padrão ou estrutura latente?
- Dom – amor oblativo em que se reconhece o valor do outro como cônjuge/ filho(a), como um presente para mim.
- Reciprocidade – com quem se está relacionando no vínculo familiar, sem contrato e sem empréstimo.
- Sexualidade – intimidade sexual entre aqueles que se amam com amor esponsal, em que um enrique o outro com algo que ele não possui. A mulher enriquece o homem com sua feminilidade e o homem enriquece a mulher com sua masculinidade.
- Generatividade – filhos: fruto de uma relação que expressa o bem comum do casal e não na autorealização.
 
Quando vemos muitos tipos diferentes de família é porque alguns dos elementos deste genoma pode desligar-se com maior facilidade. Em todos os casos a relação familiar existe de forma incompleta. Entre os entraves relacionais que conectam elementos e relações, exemplo a mulher que doa ao filho mas se negam ao cônjuge.
Seriam válidas estas novas formas de família? Teriam sua validade em critérios empíricos?
- Sua vitalidade interna (capacidade de regenerar-se)
- Capacidade de responder às expectativas da sociedade (capacidade de socialização, controle e responsabilidade para com os filhos, sustentar as relações com mútua ajuda com o(a) parceiro(a)...) Quais são as funções sociais da família?
- Equidade geracional: corresponsabilidade intergeneracional. Somos responsáveis por cuidarmos uns dos outros: pelos de cima, de baixo e dos lados. Quem cuida das crianças? O sistema de educação pública? Quem cuida dos idosos? O INSS? Quem cuida dos doentes? A saúde pública? Não! A família!
- Transmissão cultural: educa na língua, na higiene, nos costumes, nas crenças, nas relações socialmente legitimadas e no trabalho.
- Socialização: prover os conhecimentos habilidades e relacionamentos que permite que uma pessoa viva a experiência de pertença a um grupo social mais amplo. Lá se aprendem os limites e alcances do público e do privado.
- Controle social: a família introduz a pessoa que a constituem no compromisso com normas justas, com o cumprimento de responsabilidades e obrigações, om a busca não só do prazer mas também do bens árdua que exigem esforço, constância, disciplina, sobretudo através do papel do pai.
- Afirmação da pessoa por si mesma: caráter suprautilitário das pessoas e sua importância baseada na sua própria dignidade.
Portanto, a família é geradora de virtudes sociais. É constituída por seres humanos e não números. Que outra instituição se preocupa verdadeiramente pelo indivíduo em si? Só pelo grupo a que pertence: os gays, os médicos, os black blocs... Só em casa, na família é que se preocupa com o ser humano, concreto e real.
 
Perda das virtude sociais por causa da privatização da família
A família é a primeira vítima dessa perda dos valores sociais. Deve-se imputar aos processos de comercialização da vida social que privatizam as famílias. E as virtudes vão sendo geradas no Congresso, na Câmara... Sistemas sociais que operam com métodos e regras que impedem as famílias de serem virtuosas. Sistemas políticos, quando acabam com a competência educativa das famílias, sistemas econômicos quando impõe aos pais horários de trabalho incompatíveis com a família. Sistemas jurídicos quando radicalizam os direitos do indivíduo puro sem relacionamentos cancelando os direitos de solidariedade entre as famílias.

Um comentário:

Claudio Maris Ferreira disse...

Foi maravilhoso, Dom Antônio como sempre nos surpreende apresentando temas que tocam o nosso coração e alimentam a nossa fé. Podemos contar também com o Ronaldo e a Tatiana para divulgar todo este maravilhoso retiro. Deus esteja sempre com este casal. No inverno de 2014 seus corações estarão mais alegres do que nunca.